Novo disco de Caetano Veloso: ‘Meu Coco’ renova a fé do artista

 LUCAS BRÊDA

FOLHAPRESS – Na música “Gilgal”, Caetano Veloso usa falsetes para cantar por cima de uma percussão que evoca o candomblé, enquanto ele enumera os nomes de músicos brasileiros como se fossem orixás.

De Pixinguinha a Jorge Ben, pousando em Djavan, passando por Wilson Batista, Jorge Veiga, Carlos Lyra, “o imenso Milton Nascimento” e os Tincoãs.

“Meu Coco”, o primeiro disco de inéditas de Caetano em quase uma década, não é exatamente um comentário sobre a música popular brasileira.

Mas, conforme ele distribui nomes de artistas da nossa música –de Nara Leão ao DJ Gabriel do Borel–, ela surge como a explicação de um otimismo, que mais tem cara de fé, num destino autêntico e vibrante do Brasil.

Em “Meu Coco”, a faixa que abre e dá nome ao disco, João Gilberto surge como mestre, quem iluminou uma percepção das mais fundamentais talvez para toda a obra de Caetano –a crença inevitável numa originalidade perene do fazer musical brasileiro.

“O português é o negro dentre as eurolínguas/ superaremos câimbras, furúnculos e ínguas/ com Naras, Bethânias e Elis/ faremos mundo feliz”, ele canta.

Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Essa “teimosia” de Caetano é a marca de “Não Vou Deixar”, faixa delicadamente produzida, ancorada num teclado atmosférico e carregada por batida de funk desacelerada que desemboca no violoncelo de Jaques Morelenbaum.

“Não vou deixar que se desminta/ a nossa gana, o nosso drama, a nossa fama de bacana/ a nossa pinta”, ele canta, antes de apontar novamente a música como a saída. “Não vou deixar porque eu sei cantar/ e sei de alguns que sabem mais.”

“Meu Coco”, de certa forma, representa a renovação dessa fé num momento em que o Brasil talvez nunca tenha estado tão distante daquele sonhado no violão de João Gilberto, na modernidade de Brasília, nas escolas de samba, na geral do Maracanã e nas pernas de Garrincha.

“Não Vou Deixar” escancara esses sentimentos e parece ser a resposta mais direta a Bolsonaro, com um resgate do “apesar de você” de Chico Buarque e frases diretas –”não vou deixar você esculachar com a nossa vida”.

“Anjos Tronchos”, que vê criticamente o reflexo da revolução tecnológica que gerou computadores pessoais e a internet, saiu como o primeiro single, uma espécie de ponte na discografia de Caetano.

Com a guitarra de Pedro Sá, ela se conecta com a sonoridade da trilogia “Cê” –os discos anteriores do compositor–, que é deixada de lado em “Meu Coco”.

Mas, mesmo esteticamente solta no conjunto, a faixa dialoga com o fio condutor do álbum. Caetano vislumbra as consequências macabras do avanço tecnológico –entre elas a ascensão da extrema direita no mundo–, mas encerra celebrando o uso dessas mesmas tecnologias para a criação artística.

Na letra, ele lembra a americana Billie Eilish, que despontou com um disco gravado no quarto de casa com o irmão. Mas, nessa mesma reflexão, estão incluídos os produtores e MCs do funk brasileiro, hoje capazes de produzir um pop original a partir de improvisos e com os mais básicos equipamentos.

O Caetano vovô dá as caras em “Autoacalanto”, canção singela dedicada ao neto de um ano, Benjamin, mas também em “Enzo Gabriel”.

Titulada a partir do nome mais dado a meninos no Brasil em 2018 e 2019, é um diálogo do artista com as gerações futuras, ou mesmo com o futuro do país, especulando se ele será “um menino guenzo ou um gigante negro de olho azul/ yanomâmi, luso, banto, sul”.

“Sem Samba Não Dá” amarra as pontas no coco de Caetano. Está tudo meio fora de lugar, mas o brasileiro continua capaz de produzir beleza a partir da escassez.

“Tudo esquisito, tudo muito errado/ mas a gente chega lá”, ele canta, retratando um passeio pelo Corcovado. “Tem muito atrito, treta, tem muamba/ mas tem sertanejo, trap, pagodão.”

Desta vez, Caetano cita nomes das novas gerações –de Djonga a Duda Beat, de MC Cabelinho a Leo Santana, de Glória Groove a Marília Mendonça–, sem a reverência de “Gilgal”, mas com uma espécie de conselho.

João Gilberto forjou um jeito mundialmente celebrado de se tocar violão a partir da batida do samba, e aqui Caetano parece querer repassar o que aprendeu com ele –que sem samba não dá.

Nesse caso, o samba surge não só de maneira literal, mas como a alegoria de um jeito brasileiro de se fazer as coisas. A faixa é o único samba do disco, como se não fosse possível encerrar “Meu Coco” sem uma música do gênero.

Depois de nove anos sem discos de inéditas, Caetano volta trazendo para o presente e expandindo conceitos que nortearam sua obra desde que deixou a Bahia para ir com Maria Bethânia até o Rio de Janeiro. Seu destino é cantar a vida, como diz em “Você-Você”, “nesta ‘Americáfrica'”, onde se vive “entre a miséria e a mágica”.

Em “Meu Coco”, não há otimismo gratuito. Caetano pôs sua fé em xeque, mas continua vendo a música como salvação –como quando repete de maneira errante o nome do produtor de funk Gabriel do Borel (em “Sem Samba Não Dá”) ou estica o falsete para cantar o nome de Milton Nascimento (em “Gilgal”). É a mágica, apesar da miséria.


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