segunda-feira, 9 de abril de 2018

ROBERTO CAVALCANTI COMPARTILHAR: HEROÍNAS

Quem já não ouviu o adágio popular segundo o qual “atrás de um grande homem existe uma grande mulher”? Sempre rejeitei esse papel de coadjuvante que alguns machistas insistem em destinar às mulheres, com uma “generosidade” dispensável, enquanto apresentam-se como protagonistas. Como em minhas raízes existem mulheres que conquistaram, com comprovada bravura, um lugar de destaque na história, e foram por direito rotuladas de “heroínas”, nunca subestimei o gênero.

Conto com orgulho aos meus descendentes a história das mulheres de Tejucupapo, um distrito de Goiana, no meu Pernambuco, que ouvi inúmeras vezes enquanto crescia, e a cada vez com maior admiração por elas. Tejucupapo tinha algumas casas e uma igreja quando em 1646 virou alvo dos holandeses que ocupavam Pernambuco, estavam em guerra com os portugueses e sofriam com a escassez de alimentos.

O pequeno vilarejo era produtor de mandioca e de farinha. Seus homens eram também pescadores e, todos os domingos, levavam seus produtos para feiras em Recife. Ficavam poucos homens, as mulheres e as crianças. Sabendo desse detalhe, os holandeses escolheram um domingo para invadi-lo e garantir alimentos para suas tropas. Foram deslocados 600 soldados do exército flamengo, sediados no Forte Orange, na Ilha de Itamaracá. Não esperavam confronto. Informadas sobre o iminente ataque, quatro mulheres organizaram a resistência.

Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Joaquina mobilizaram todos. Cavaram trincheiras e prepararam uma “arma química” – água fervente com muita pimenta – e surpreenderam os holandeses, jogando a mistura em seus olhos, o que provocava dor e cegueira, deixando-os vulneráveis às armas disponíveis, como facas, paus, pedras... No final da luta, mais de 300 cadáveres.

Os holandeses fugiram e nunca mais voltaram. Essa batalha foi importante na expulsão dos flamengos, tanto que um monumento em Tejucupapo lembra a coragem e a determinação de suas mulheres. Minhas referências femininas, em casa e no trabalho, são desse tipo de mulher.

Por toda a minha vida sentimental, sempre estive acompanhado de mulheres guerreiras. Assim, foi natural testemunhar, na última quarta-feira, três representantes do gênero fazendo história no Brasil. A ameaça a ser enfrentada não era um invasor estrangeiro. Era muito mais perigosa. Estava em causa a crença dos brasileiros de bem nas instituições, especialmente na capacidade do Judiciário de não apenas aplicar a lei, mas de garantir justiça. A questão era: a lei vale para todos, ou no Brasil tem uns que estão acima dela? Se a lei não alcança ricos e poderosos, quem punirá os maus? Recorreremos a justiceiros? Três mulheres, as ministras Cármem Lúcia e Rosa Weber (STF) e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, garantiram que os brasileiros não desacreditassem do Judiciário. Resistiram a críticas e manobras intimidatórias, mas prevaleceram.

Elas foram vitoriosas em um round que não encerra a luta contra a corrupção, o oportunismo, a picaretagem e o maucaratismo, que será contínua e exigirá muita vigilância contra retrocessos. Contudo, o que conquistaram foi decisivo para manter a esperança em um desfecho que privilegie a ética, a honestidade, o bem comum. Os tempos mudaram, mas a força das mulheres permanece. E muitas merecem ser chamadas de heroínas.
POSTADO POR FERNANDO COUTINHO - NAÇÃORURALISTA.COM.BR

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