domingo, 21 de agosto de 2016

Por cima de queda, coice!

Nascido e criado no semiárido, o tempo é uma preocupação constante em minha vida. No meio rural, dia bonito é dia nublado.

E que saudades tenho de contemplar de algum alpendre campesino a boa ventura de um céu com nuvens carregadas...

Nos últimos anos, de onde quer que se olhe nos campos nordestinos, o que se enxerga é a aridez – prova inconteste de que a crise hídrica mundial não é mais uma tese; uma hipótese que se desenha nos horizontes esturricados.

Acontece aqui e agora, privando milhares de paraibanos até da água de beber.

Para toda essa gente sedenta, a salvação é a integração do Rio São Francisco.

A lenta e tantas vezes adiada transposição.

A ameaçada transposição.

Sim, esta ameaça não pode ser descartada.

Pois o velho Chico, nosso doador, dá sinais de anemia profunda.

Estes sinais vêm de um endereço seguro: do sistema Chesf, a companhia que responde por boa parte da energia gerada e comercializada no Nordeste, a partir da bacia hidrográfica do São Francisco.

Em comunicado circular do último dia 15 (Fax-SOC- 025/2016), emitido para os agentes do setor elétrico na região, a Chesf avisa que estuda reduzir (de novo) a vazão dos reservatórios de Sobradinho e Xingó em nome da “segurança hídrica do São Francisco”.

Os dois reservatórios, que nos tempos das vacas gordas tinham descargas mínimas instantâneas de 1.300 metros cúbicos por segundo, vem sofrendo constantes reduções ao longo dos últimos quatro anos.

Não se trata, portanto, de um problema novo. Ou de uma emergência anômala. Não foi, em resumo, um meteoro que caiu sobre o “quengo” nordestino, instituindo uma era perversa.

Há pelo menos quatro anos não contamos com a generosidade dos céus. E temos sido obrigados, literalmente, a fechar as torneiras – provocando repercussão, no caso em epígrafe, também no sistema elétrico.

Se vingar esse novo contingenciamento, as vazões de Sobradinho e Xingó baixarão para 700 metros cúbicos por segundo - um cenário agudo que ainda pode piorar. E muito.

No documento, a Chesf não doura a pílula. Diz que a situação nordestina é de “excepcionalidade e gravidade”, podendo demandar ações ainda mais agressivas caso as condições hidrometeorológicas permaneçam.

Ou seja: a água que ainda nem chegou, pode faltar.

Diante dos alertas da Chesf e do panorama que contemplo de meu alpendre meditativo, chego a conclusão de que o desfecho desse enredo converge para um ditado muito nosso, tantas vezes vivido pelo povo nordestino:

"Por cima de queda, coice"!

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