terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lado a lado



O ser humano é, por essência (e necessidade), um ser adaptável. E esta talvez seja sua característica mais fantástica.

Suplanta, inclusive, o potencial de adaptabilidade dos animais.

Enquanto os bichos têm que superar tão somente seus instintos (e as transformações naturais), o homem precisa lidar com uma barreira que, apesar de invisível e intangível, é tão difícil de transpor quanto o Everest: a própria consciência.

Eu, por exemplo, venho de uma geração que teve que passar por um processo brutal de adaptação – possivelmente a maior modificação comportamental da história da humanidade.

E não é para menos: da minha infância aos atuais setentinhas, o mundo sofreu metamorfose completa.

No meu tempo de menino, o que me fazia feliz era passar meses construindo balões de ar quente para soltar no São João. Era passarinhar com minha espingarda de ar comprimido. Encomendar a lenha para a grande fogueira. E criar Canários da Terra para brigar.

Como sabemos, tudo foi proibido. E o menino Roberto teve que se adaptar.

O homem Roberto, porém, experimentaria testes mais duros de adaptabilidade.

O principal deles é a mudança aguda, definitiva e gritante da mulher.

Sou de um tempo em que, quando se desejava destacar a presença das mulheres, se dizia que por trás de um grande homem tem sempre uma grande figura feminina.

Tancredo Neves, por exemplo, tinha sua Risoleta; Franklin Roosevelt, a Eleanor; Peron, Evita.

O ditado, porém, entrou em franca obsolescência. E por uma questão elementar: as novas coordenadas geográficas que a mulher ocupa nos relacionamentos, no mercado de trabalho, no mundo. Elas, definitivamente, não estão atrás de homem algum – nem grandes nem medianos.

Ladeiam. E avançam.

Verdade que o patriarcado se impôs por muito tempo, tolhendo e sombreando a figura feminina.

Elas, porém, nunca foram tão gigantes quando neste momento histórico – um processo que ganhou volume na Segunda Guerra. Enquanto os homens duelavam, elas tomavam conta do mundo – da casa à fábrica. E nunca mais recuaram um só milímetro.

Muito pelo contrário.

O crescimento educacional, a necessidade da mão de obra feminina e a consequente independência financeira, somado ao aparecimento da pílula anticoncepcional, instituíram um novo mundo.

Elas conquistaram o saber, o dinheiro e o pleno domínio sobre o próprio corpo.

E todas essas transformações exigem profundas mudanças comportamentais.

O conceito de relacionamento homem-mulher foi totalmente modificado. Exigindo, mais do que nunca, a capacidade masculina de adaptação.

Eu particularmente tive que mudar meu ângulo de visão sobre o universo feminino. 

Descartar valores que não cabem mais. E adquirir novos padrões e entendimentos.

O homem de hoje não basta ser bem sucedido. Ou galã. O pacote, definitivamente, precisa ser preenchido com outros valores: companheirismo, intelectualidade, cultura, cavalheirismo.

O novo homem tem que torcer e ser parceiro dessa nova mulher. Precisa, sobretudo, conquistar a admiração dela.

E por um bom motivo: ela não precisa mais dele. Não precisa manter o que não lhe serve. O que não mais lhe atrai. Nem fascina.

Acabou a submissão. E a condição de coadjuvante.

Nossa missão, de agora em diante, será continuar nos adaptando para merecer ser um grande homem ladeando uma grande mulher.

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