Afago

Você já deve ter assistido a cena: animal mais feroz do reino, número um absoluto da cadeia alimentar, sempre pronto para o próximo ataque, o leão transforma rugido em ronronado diante de um afago. E vira um gato graúdo, tocado pelo gesto de carinho do seu tratador.

Se entre as feras o afago faz “estragos” (no sentido positivo do fenômeno), no bicho humano o efeito é ainda mais profundo. Devastador até.

Na selva de pedra – rígida e impessoal – ele vem como um bálsamo, ativando todos os sentidos, desaguando em emoções que repercutem física e mentalmente.

De seus efeitos – pode apostar - ninguém está imune. Nem mesmo os mais ferozes de nossa espécie.

O afago é uma carícia – no corpo e na alma. E realmente me encanta, ate porque seu custo geralmente é zero. É só ter boa vontade. E praticar.

Digo mais: suas repercussões não estão diretamente ligadas ao tamanho do gesto. Mas na sua simbologia.

Pode vir no formato eterno de um diamante. Na perecibilidade da fruta da estação, reservada para agradar um paladar especial. Ou no ajeitar das cobertas de quem dorme ao lado, no frio da noite.

Pode vir, ainda, na forma de um elogio. Ou num gesto de reconhecimento.
Seja lá que forma assuma, o afago é poderoso.

Capaz de cessar guerras. Encerrar discórdias. Aproximar diferentes. E unir antagônicos.

E é por isso que sempre me pergunto porque alguns têm tanta dificuldade em afagar. Porque parecem incapazes de colocar em curso um ato tão simples, sabendo de antemão de seus efeitos gigantescos.

Aparentemente não são – por contingência ou característica nata – afeitas ao afago.

Como carregassem, dentro de si, uma espécie de distúrbio ou defeito congênito que lhes restringe a capacidade de estender a mão e afagar.

Ou como se tivessem sido contaminados pela brutalidade do mundo.

Desses, me apiedo.

Pois desconhecem o poder daquilo que abrem mão. Ignoram, por completo, os benefícios da cultura do afago como comportamento permanente.

Me apiedo, ainda mais, daqueles que têm consciência dos benefícios da afabilidade – e mesmo assim quedam, incapazes, de colocar em curso um só gesto.

Deveriam saber que, se não têm a capacidade de berço ou são tolhidos por temperamento, poderiam adquirir pelo esforço e pelo exercício – tal como um atleta, que esculpe sua franzinisse às custas da disciplina diária.

Algo como fez Zico, o galinho que se transformou em uma máquina de gols. Ou Messi, a pulga que brilha nos gramados mundiais.

Não tem o dom nato? Busque. Crie. Cultive.

O ganho – repito – é incalculável.

Pois de forma espontânea ou por obra e graça do esforço, o afago reserva, aos seus, a maior medalha que se pode conquistar na vida:

Ser uma lembrança inestimável no coração dos amigos. E ter uma existência marcada pela afabilidade e cortesia.

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