RRI conquista prêmio internacional de jornalismo Rei da Espanha

A reportagem especial As Eternas Escravas conquistou mais um prêmio nessa terça-feira (12), só que desta vez internacional — Prêmio de Jornalismo Rei da Espanha na categoria de Televisão. A produção especial da Record disputou com outros 42 trabalhos e venceu por unanimidade. O júri do concurso avaliou a elegância da linguagem visual e a capacidade de resumir múltiplos problemas sociais em uma reportagem. A ata destaca ainda que a denúncia exibida no programa foi acolhida pelas instituições políticas brasileiras, que pediram providências ao governo de Goiás.

O Prêmio Rei da Espanha de jornalismo está na sua 33ª edição e é promovido pela Agência EFE e a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Os vencedores faturaram 6 mil euros e uma estátua em bronze do artista Joaquín Vaquero Turcios.

Em 2015, a reportagem também ganhou o Prêmio Esso de Telejornalismo (atualmente conhecido como Prêmio Exxonmobil de Telejornalismo), competição considerada referência no jornalismo brasileiro. E não parou por aí. A matéria ainda levou o 32º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo.

Em conversa exclusiva ao R7, o editor Marcelo Magalhães e o repórter Lúcio Sturm relataram os bastidores e as dificuldades que a equipe enfrentou durante os dois meses de apuração, gravação e edição da reportagem que conheceu mais a fundo a vida de moradores de um quilombo localizado a 320 km de Brasília (DF), considerado patrimônio da humanidade.

— Há 200 anos, os antepassados dessas meninas fugiram para esta região justamente porque eles queriam escapar da exploração, da falta de liberdade, dos abusos, ou seja, de tudo o que envolvia a escravidão. Se a gente parar para pensar que 200 anos depois, em pleno século 21, as descendentes desses escravos estão passando pela mesma coisa, é muito simbólico. O título que nós demos para o programa representa muito bem isso, pois são As Eternas Escravas. É um ciclo de escravidão que, mesmo tanto tempo depois da abolição da escravatura, continua acontecendo.

+ Assista aos bastidores da matéria vencedora do Prêmio Rei da Espanha

Embora já tenha entrado em contato com outras duras realidades em suas matérias, Sturm ficou surpreso com o tamanho abandono vivido por aquelas pessoas.

— Logo que cheguei, fiquei bastante impressionado em relação ao atraso da cidade, com a situação que eles viviam. Aquela cidade sintetizava o Brasil, porque tudo estava errado, uma vez que ali tem corrupção, exploração do trabalho infantil. Ali dentro do quilombo, como não tem energia, escola, não tem nada, eles têm que sair para as cidades vizinhas para trabalhar. Além disso, eles sofrem trabalho escravo e abuso sexual. Eles são vítimas dessa tentativa de integrar a sociedade. Já sofrem uma batalha financeira, pois precisam trabalhar, precisam morar na casa de alguém para poder estudar e ainda são abusados.

Necessidades básicas como saúde e educação são negadas diariamente aos moradores do quilombo, enfatizou Magalhães.

— Mesmo ali dentro, eles não têm acesso a nada. Não tem acesso ao direito à educação porque as escolas ficam longe, não têm acesso a saúde, porque o hospital fica a inúmeros quilômetros. Por isso, para eles tudo é uma batalha diária e, para piorar o que já é difícil, ainda tem a situação da exploração.

Em menos de dois anos no ar, o jornalístico Repórter Record Investigação, que estreou em 28 de abril, já venceu sete prêmios importantes com suas reportagens especiais, obteve uma menção honrosa e ganhou dois prêmios de melhor chamada.

Desafios

Para que a reportagem fosse exibida pelo Repórter Record Investigação, toda a equipe precisou vencer obstáculos. 

— O mais difícil foi a localização geográfica. Para se ter uma ideia, o quilombo é do tamanho da cidade de São Paulo, mas tudo em estrada de terra, então, é muito difícil o acesso. São vários vilarejos e, para sair de um para o outro, a gente demorava umas três horas. Isso tudo sem telefone, porque você não tem como ligar, já que eles não os possuem. A vida lá dentro do quilombo é como no século 19, já que não tem energia elétrica, eles nunca viram televisão. As casas são de pau a pique. Famílias andam de 5 a 6 quilômetros para chegar ao hospital mais próximo.

Durante o processo de finalização, Magalhães afirmou que os representantes do governo evitavam responder aos absurdos que aconteciam bem debaixo dos olhos deles.

— Do ponto de vista de edição, o desafio foi cobrar as respostas, porque o quilombo é uma área protegida pelo governo, como se fosse uma reserva indígena, uma área delimitada, e possui uma série de restrições e regras que precisam ser respeitadas. Apesar de no papel ter toda essa proteção, na verdade, funciona como uma terra sem lei. Gustavo [Costa, que também faz parte da equipe] e Lúcio foram atrás das pessoas acusadas desses crimes. Tinha vereador envolvido que não dava resposta, eles não conseguiam encontrá-lo.

Como mostrado em As Eternas Escravas, Magalhães explicou que os abusos também eram cometidos por poderosos do local como empresários da cidade, comerciantes, vereadores e secretário da prefeitura.

— São os próprios poderosos. Pessoas que deveriam cuidar daquele povoado, que foram eleitos para cuidar desse povo ou ganharam muito dinheiro e têm uma influência econômica e deveriam tomar conta dessa população são os que fazem exatamente o contrário.

Personagem marcante

Ao longo da produção da reportagem, os jornalistas do RRI se depararam com histórias comoventes. Magalhães destacou a vida de uma moradora do quilombo em especial e, após denunciar o que ocorria, encorajou mais gente a denunciar.


— Todas são bem fortes, pois se tratam de crianças e tudo mais. Porém uma personagem específica de 28 anos foi explorada desde os cinco. Durante 18 anos, ela guardou todas as consequências dessa exploração sexual, trabalhista e não contou para ninguém. Ela foi abusada dos 5 aos 14 e só contou pela primeira vez isso quando tinha 23 anos. Durante 18 anos, ela foi explorada sexualmente, trabalhou como escrava com pessoas da mesma idade, dormiu em casinha de cachorro por três dias, porque a patroa não gostava dela. Guardou tudo isso até denunciar na cidade e acabou sendo um grande exemplo para as outras meninas. Hoje, a personagem carrega uma série de traumas: não consegue se relacionar com homens, tem crises de pânico e vontade de correr para o mato para se esconder e ficar sozinha.

Os abusos eram vistos de maneira natural por boa parte de quem vive perto do quilombo, conforme relatado por Sturm.

— Por que os homens da cidade estavam fazendo isso? Porque é meio cultural por lá você explorar e manter uma relação com uma garota, como se fosse uma espécie de coronelismo. Como oferecem emprego para algumas, eles se sentem no direito de chegar lá e estuprar. Às vezes, as esposas desses homens estão cientes disso tudo e não fazem nada. É bem aquela coisa retratada em novela e filme onde os homens abusam do poder econômico para poder se satisfazer sexualmente.

Magalhães ressaltou que até mesmo vizinhos que trabalhavam na área da saúde se sentiam “donos” de quem mora no quilombo.

— Um dos homens que foi condenado era alguém que fazia próteses dentárias, como se fosse um dentista da região, mas não sendo formado em odontologia. Em conversa com o Lúcio, ele fala que não é o único, que várias pessoas fazem isso. O discurso dele dá a entender que isso é uma situação normal, inclusive ele fala certa hora que a menina na época [que sofria os abusos] tinha 8 ou 9 anos e “até era bonitinha, mas, hoje, ela está feia” e começava a rir do que dizia. Para se ver como isso é cultural, ele não tinha nem vergonha de fazer isso. Eles faziam leilão de meninas virgens e há relatos de que elas eram vendidas por R$ 100.

Repercussão chega à Justiça

Após a exibição da reportagem, uma CPI foi criada pela Assembleia Legislativa de Goiás para apurar as denúncias. Assim como aconteceu em matérias anteriores, Magalhães adiantou que o Repórter Record Investigação pretende saber até onde irão as investigações.

— O Repórter Record Investigação tem essa tradição de levantar as histórias e continuar acompanhando. Como a gente entrou nessa, certamente vamos continuar de olho, porque temos muito interesse em saber o que aconteceu com essas meninas e, depois de uma denúncia como essa, esperamos que haja uma solução definitiva.

Segundo o editor, a solução para que os casos não se repitam está nas mãos justamente dos governantes.

— Há uma necessidade muito grande do poder público acompanhar mais de perto essa história, porque o delegado que trabalha nessa região visita o local de 15 em 15 dias. A promotora que trabalha no caso é quase que uma voluntária diante de tudo que acontece. Isso porque ela quer levar as coisas adiante, mas não tem delegado que vá com frequência, não tem juiz para julgar eventualmente os acusados. Por isso, acho que para resolver esse problema é preciso uma aproximação real e efetiva das autoridades.

Por falar em ação do poder público, Sturm contou que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), prometeu levar energia ao quilombo até o final do ano.

Jornalismo investigativo no Brasil

Sturm acredita que o Brasil possui vários profissionais de comunicação interessados neste tipo de apuração.

— Nessa área, tem bastante gente que se importa com essas questões e muitos profissionais competentes que fazem um trabalho fantástico.

Magalhães, por sua vez, ressaltou o trabalho de colegas de profissão e listou outras conquistas do Repórter Record Investigação.

— Existe no Brasil grande espaço para quem quer trabalhar com jornalismo investigativo. Muitos colegas fazem reportagens excelentes, tanto que os dez finalistas do prêmio Exxonmobil são reportagens fantásticas, mas o Repórter Record Investigação busca cada vez mais ocupar um espaço de destaque e liderança nesse sentido. Esse prêmio é um sinal da conquista desse espaço. É um programa que voltou há um ano e ganhou três principais prêmios de jornalismo em 2015: Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo [com a exibição da reportagem especial O Mistério do Matador de Mulheres], Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos [pela apresentação da matéria Estrada da Fome] e agora o Prêmio Esso de Telejornalismo 2015. Esses prêmios vieram para mostrar que o Repórter Record Investigação veio para ficar.

A reportagem As Eternas Escravas gerou interesse por parte da imprensa internacional, como explicado por Magalhães.

— Um jornalista francês veio conversar para saber como poderia abordar essa questão. Outra pessoa que entrou em contato comigo foi um representante de uma universidade americana que estava no Brasil fazendo um trabalho de direitos humanos e exploração e achou que o tema casava com a pesquisa dela. Então, passei alguns contatos para ajudar.

Para o editor, a escravidão no Brasil tem solução.

— O problema é a desigualdade financeira, que é isso que acaba fazendo essas pessoas sofrerem isso. Enquanto houver desigualdade, vai ter gente com poder o suficiente para abusar e gente para ser abusado.

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