Ronaldo esteve aqui

Todos estes anos convivendo com jornalistas me ensinaram que não se deve abrir mãos das fontes – nem tampouco revelá-las. Portanto, não revelarei as minhas. Apenas atesto que são fidedignas. E que jamais mentiriam sobre os fatos que passo a narrar a seguir:

Quando morreu, Ronaldo Cunha Lima intuitivamente pensou: eu vou para onde estão os poetas. E esse lugar só pode ser o céu, pois Deus não seria besta de abrir mão da companhia da poesia.

Foi uma espécie de se colar, colou.

Mas Ronaldo deu sorte, muita sorte! Quando lá chegou, o oficial da porta celestial do dia era nada mais nada menos que São João. Ele fez questão – claro – de se identificar.

- Sou Ronaldo Cunha Lima, de Campina Grande.

São João logo se interessou:

- Campina Grande, que realiza todos os anos a maior festa do mundo em meu nome?

Animado, Ronaldo respondeu:

- Essa mesma. E eu sou ex-prefeito da cidade.

Algo na voz de Ronaldo fez o santo questionar:

- Por acaso foi você que iniciou toda essa festança em minha homenagem?

Ronaldo assentiu. Mas, humildemente, ponderou:

- Olha, iniciar eu não iniciei. Mas dei uma transformada sim. Dei visibilidade. E assim nosso São João se transformou no maior do mundo.

Um resoluto São João, todo animado, já abanando as mãos para que Ronaldo adentrasse, disse apenas:

- Pois temos muito o que conversar!

Anos depois, às vésperas deste último Natal, Ronaldo voltou a encontrar São João. Ele caminhou em sua direção e foi logo puxando assunto:

- Ronaldo, é verdade que essa sua cidade, a tal Campina Grande, agora está fazendo o Natal mais bonito do mundo?

Ronaldo desconversou:

- Ouvi falar assim por cima, mas não veio recentemente ninguém de lá para confirmar o boato.

Mal terminou de dizer isso, surgiu aquele brilho de esperteza no olhar de Ronaldo, que foi logo emendando:

- Meu filho, por coincidência, é o vice-prefeito de Campina neste momento. Se tivesse a possibilidade de ir lá, eu iria, olharia tudo e voltaria para contar ao senhor. Teria essa chance?

Para a surpresa de Ronaldo, o santo acenou a cabeça.

- Sim, teria.

E, assim, São João despachou Ronaldo de volta para a Terra.

Segundo minhas fontes, Ronaldo ficou doido com o que viu.

Nunca o Açude Velho esteve tão lindo. Prédios – alguns que jamais tinha visto antes – estavam todos iluminados. E o que era aquilo na sede da Fiep? Estava absolutamente deslumbrante. Para onde quer que olhasse, Ronaldo via uma profusão de brilhos. Na terra do maior São João do mundo também haviam criado um grande e iluminado Natal.

Ronaldo voltou para o céu encantado. E já encontrou São João a sua espera.

- E aí, é verdade?

- Verdade verdadeira, senti o espírito natalino em cada praça, em cada rua, respondeu Ronaldo.

São João insistiu:

- E como está lá? Conte.

- Tudo azul, São João. A cidade está toda azul.

O santo ficou pensativo. Olhando cá pra baixo, pensou em voz alta:

- É por isso que, quando olho pra Terra, vejo que ela está ainda mais azul!? Minha nossa, deve ser a iluminação do Natal de Campina Grande!



PS: acredite se puder, mas todos esses diálogos – com toda a riqueza de detalhes – me foram revelados em um sonho, sonhado esta semana. Foi tudo tão surpreendentemente claro e detalhado que, ao acordar, fiz questão de colocar no papel. E, agora, partilho com vocês.

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