Direitos individuais

O bloqueio do WahtsApp foi uma experiência suis generis – pelo menos para mim. Como sou taxado no ambiente familiar de “whatscompulsivo”, tinha me preparado para férias de 48 horas.

Como sabemos, durou bem menos.

Confesso, fiquei frustrado. Como foram sossegadas e libertadoras as 12 horas que me mantive compulsoriamente afastado do vício de espiar o que me comunicava aquela bolinha seguida de efeito sonoro. Eu simplesmente não consigo ignorar nem tampouco deixar de responder.

As 12 horas de pausa também me fizeram enxergar como absorvemos, sem controle, as ferramentas tecnológicas – afetando nossa rotina e interações.

E isso não foi tudo.

A mais forte lição que extrai do processo, na verdade, me foi dada por minha neta Maria Beatriz.

Desde os 14 anos ela mora e estuda fora do país. E é justamente pelo WhatsApp que mantemos contato e aquecemos, com muito afeto, a relação neta-avô.

Na última quarta-feira, quando a informei já tarde da noite que haveria um break em nossa comunicação, em função do bloqueio judicial, ela prontamente reagiu:

- E eles podem fazer isso?

Ela ainda insistiu, constatando:

- Errado isso... Muito errado! Se é uso pessoal, eles não podem fazer isso.

Minha neta está afastada do Brasil há quatro anos - já está, portanto, com a cabeça internacionalizada. Ou menos brasileira. E lá fora, nos países civilizados, existe postura consagrada no que diz respeito aos direitos individuais.

Não tenho dúvida: jamais passaria pela cabeça de um magistrado norte-americano punir toda a nação porque uma determinada empresa contrariou interesses judiciais. A pluralidade não pode ser atingida pelo dolo particular.

Esse entendimento já deveria, há muito, estar incrustado na alma do brasileiro.

Nós, porém, recebemos passivamente, resignadamente, uma punição por crime que não cometemos.

Do ângulo em que enxergo esta pendenga, até acho justo que o Facebook – dono da ferramenta - sofra punição, pois – segundo a mídia nacional - a empresa teria repetidamente se recusado a ajudar a polícia brasileira a capturar criminosos perigosos.

A nação inteira, porém, não poderia ser arrastada para o castigo.

Se é verdade que o uso maciço do WhatsApp é centrado no lazer, também é verdadeiro afirmar que o aplicativo se transformou em importante ferramenta de trabalho.

Muitos de nós tivemos prejuízos.

O maior deles, no meu entender, foi a afronta ao direito individual – uma prova (mais uma) de que, juridicamente, por vezes saltamos do século 21 para dar de cara com os tempos medievais.

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