Descrédito

Presenciei a cena há poucos dias, no aeroporto de Brasília. Meu observatório era uma cadeira de engraxate, de onde meus sapatos eram lustrados enquanto aguardava o mal tempo amainar e permitir que seguisse viagem.

Pai, mãe e filho pré-adolescente caminhavam em minha direção. Bem vestidos, provavelmente integrantes da classe média alta da Capital Federal, embarcando para férias.

O pai parou ao meu lado. Também queria lustrar os sapatos.

Ao se assentar na cadeira do engraxate, passou uma mala de mão para o filho com recomendações bem específicas:

- Filho, cuidado! Toma conta direitinho da mala se não o pessoal do Lula vem roubá-la.

A voz não estava nem alta nem baixa. Não parecia querer compartilhar piada de mau gosto com as pessoas do seu entorno.

O tom, definitivamente, não era jocoso. Estava sério, denotando que desejava realmente ensinar ao filho ainda em tenra idade que tipo de nação – e de gestores – formam a cena brasileira.

Aquele flagrante de temor e descrença não poderia ser mais deprimente. Nem chocante.

À mim soa com extrema gravidade o fato de parte da população nutrir tamanho sentimento de descrédito em relação ao País e aos seus líderes.

O mal que presenciei ali foi duplo.

Primeiro, por um pai induzir seu filho a desconfiar de um expoente nacional, líder político inconteste, ex-autoridade máxima do País – o que certamente respinga na autoridade atual, a presidente recém reeleita Dilma Rousseff.

Segundo, em função dos capítulos atuais de nossa história republicana – recheados de casos de corrupção – incrustarem o descrédito no imaginário popular.

E quando parte da população acredita que seus gestores roubam, os integrantes dos demais extratos sociais passam a supor que seus delitos são menores.

Ocorre uma espécie de autojustificação:

Vamos levar o carro porque levaram os cofres da Petrobras; vamos subornar o guarda porque o governo subornava os parlamentares com mensalões.

Falei em um mal em dois atos, mas na verdade ele avança para um terceiro ponto – talvez o mais grave deles: um País não pode evoluir estrategicamente nem ter sucesso quando sua população não acredita em seus líderes.

Nem os respeitam.

É preciso nutrir a fé de que eles são honestos. E vigiam, com rigor, o patrimônio nacional.

Sem isso, não nos importamos em encher a mala figurativa da nação. Afinal, a qualquer momento, alguém pode levá-la.

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